Aprendiz
alfacinha na cidade do tripeiro
- Alfacinha, rápido!
Ainda tens muitos ovos debaixo dos braços. Para quebrar, carago!
- Diga, senhor Alfredo…
Assim começava mais uma
jornada de trabalho do terceiro turno na Tipografia Foz-Douro, ali para os lados
de São Bento, na cidade dita invicta, o Porto.
Zé Luís ainda era
aprendiz de offset e Alfredo o oficial de impressão, este, nado e criado numa
das chamadas ilhas da cidade, um daqueles lugares habitacionais da cidade onde
a comunidade vivia paredes meias com meio mundo, partilhando latrina, acesso e
tudo o que lhes moldava o quotidiano. A origem das ilhas é desconhecida sendo
certo que no século XVIII já eram relatadas casas a que se chamava de ilhas.
Em inquirições de D.
Afonso IV (1291-1357) fazem-se referência também a conjuntos de habitações com
apenas uma saída para a rua.
Foi, no entanto, no
final do século XIX, com o desenvolvimento industrial da cidade, e com a
chegada de muitos migrantes das terras do norte do país, que este tipo de
habitação se massificou.
O lote tinha,
normalmente, 5,5m de largura, de frente para a rua, por uns 100m de comprido.
As casas burguesas eram construídas nos primeiros 30m, sendo que ficavam a
sobrar uns 70m nas traseiras das casas. O proprietário abria uma ligação por
baixo da casa por um corredor até ao fundo do quintal, de 1 a 2 metros de
largura, e de um lado e de outro construía pequenas habitações precárias.
Essas eram então
pequenas habitações com áreas que não excediam os 16 m² (algumas apenas com 9
m²), construídas em fila (algumas vezes também costas com costas), nos quintais
das casas da classe média que davam para a rua. As frentes dessas habitações
tinham, regra geral, cerca de 4 metros, tinham uma porta e uma janela (que
deitavam para o corredor central). A primeira divisão, que ocupava quase toda a
casa, era a sala. Ao fundo existia um quarto, de 2,5m por 1,5m, e uma cozinha,
de 1,5m por 1,5m. Por vezes, era improvisado um pequeno quarto no sótão. As
retretes eram comuns, sendo que correspondiam, em média, 1 retrete para cada 5
casas.
Na segunda metade do
século XIX, o Porto vivia um clima de euforia industrial que atraiu à cidade
populações rurais, vindas do Minho, de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Beira
Alta, fugidas da crise rural que ali se vivia. A procura de alojamentos baratos
fez então destes aglomerados de construções abarracadas, com uma única entrada,
um atractivo negócio, principalmente explorado por pequenos proprietários que,
dispondo de pouco capital, viram nas ilhas a garantia de uma rápida recuperação
do capital investido e, a curto prazo, lucros significativos.
Os interiores dessas
casas, onde viviam famílias inteiras, facilmente de 10 ou mais pessoas, eram de
madeira, não tinham esgotos, nem abastecimento de água, tinham ausência de ventilação
e janelas pequenas que forneciam fraca iluminação. A juntar a estas condições a
utilização comum de certos equipamentos, a convivência com animais e a falta de
educação dessas pessoas e a pobreza moral de alguns, deixam imaginar o ambiente
desses espaços.
Como o Código de
Posturas Municipais de 1869 limitava a fiscalização camarária ao que era
visível da rua (que neste caso eram as frentes de uma casa vulgar, normalmente
a do promotor) e as ilhas acabavam por ser construídas no interior dos
quarteirões, elas não estavam sujeitas ao controlo municipal, e à vista do
cidadão. A uma primeira vista a cidade não mostrava aquela miséria.
Zé Luís tinha nascido e
vivido até àquela data, quinze anos, no bairro da Madragoa, em Lisboa, daí a
alcunha, alfacinha, na tipografia onde quase todos eram naturais da área da
cidade do Porto. Os pais do aprendiz até eram bimbos de Soure, emigrados em
Lisboa, mas tinham-se mudado para Gondomar, onde as rendas de casa eram
relativamente baixas e um emprego nos armazéns de matérias de construção
permitiam à família uma vida mais desafogada. Em Lisboa, a carestia do custo de
vida vinha arreliado a dona Augusta que todos os dias se queixava dos preços do
peixe, frutas e legumes na praça da Ribeira, na capital, ali para as bandas do
Cais de Sodré. O marido de Augusta levava a lancheira no elétrico circulante
nos carris de Santos, para Sapadores em Lisboa. Em Gondomar deslocava-se
matinalmente a pé através de um carreiro. Voltava ao meio dia para o almoço
para logo regressar ao armazém. As horas de saída ao fim do dia estavam
condicionadas ao movimento no armazém. Hora, no Porto, decorria o processo de
autoconstrução, o apelidado SAAL, cuja construção levou o armazém do senhor
Manuel Loureiro a um grande volume de venda de materiais de construção. Aliás,
foi isso que levara Loureiro a vender o seu estaleiro dos Sapadores, na
capital, mudando-se para Gondomar.
Em Lisboa, com o
advento da Revolução do 25 de Abril de 1974, havia horário a cumprir, em
Gondomar, na venda do Loureiro e, no Porto, na oficina do Foz-Douro, as regras
mantinham-se dos tempos do fascismo – horas, só de entrada, saída, até o
trabalho findar.
Zé Luís, na semana do
segundo turno foi levar almoço ao pai, porque o senhor Manuel Loureiro acusava
o empregado, marido da dona Augusta de demorar no almoço – habitualmente,
atirava-lhe:
- Hoje o almoço foram
ossos ou espinhas? Ou ainda dormiste a sesta?
Zé Luís, chegou e
perguntou:
- Senhor cramalheira, o
meu pai está?
- Senhor quê? Replicou
o dono da estância.
- Desculpe, senhor
Manuel, foi sem ofensa.
- Oube lá, sem ofensa,
a cona da tua mãe, oubiste? O teu pai está despedido, boltai lá para os mouros,
seu caralho.
Zé Luís descuidou-se ao
chamar um dos muitos alcunhas que Loureiro tinha em Lisboa e, desse modo,
provocou o despedimento do progenitor.
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